Isa Amirah

Isa Amirah

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

Magia Cigana

Se você clicou aqui esperando uma lista de feitiços com canela ou o segredo para atrair prosperidade com moedas, sinto informar: você foi mais uma vítima de séculos de marketing cultural e preconceito disfarçado de misticismo.

A verdade é que "Magia Cigana" não existe. O que existe (que é muito mais profundo e complexo) é uma série de práticas culturais e religiosas de povos que, ao serem observadas por olhos externos (gadjos, ou não-ciganos), foram rotuladas como "magia".

O Exótico que vende, o Povo que sofre

https://www.destaquenoticias.com.br/filme-mostra-a-luta-e-as-tradicoes-dos-ciganos/

A construção da "magia" foi, antes de tudo, uma ferramenta de exotização. Ao transformar rituais de passagem, conhecimentos de medicina natural (fitoterapia) e métodos de subsistência em "feitiçaria", a sociedade ocidental criou um produto consumível.

É muito fácil comprar um baralho cigano ou decorar uma festa com lenços coloridos, mas é muito difícil lutar pelos direitos civis de uma comunidade que ainda é expulsa de terrenos e impedida de acessar serviços básicos.

De "Bruxos" a "Golpistas": A mutação do preconceito

Interior de uma Casa de Ciganos. Jean-Baptiste Debret (1823)
https://www.historia.uff.br/impressoesrebeldes/revista/caca-aos-ciganos/

Rotular um povo como "místico" nunca foi um elogio. Foi, historicamente, o pretexto perfeito para a demonização.

  • No passado: se algo dava errado em um vilarejo, a culpa era da "praga" do cigano.

  • No presente: se estamos nos grandes centros urbanos, o estigma de "feiticeiro" se transforma no de "golpista".

O mecanismo é o mesmo: tirar a humanidade de povos ciganos. Se eles possuem "poderes ocultos" ou se são "naturalmente trapaceiros", eles deixam de ser cidadãos e passam a ser anomalias

Nesse caso, a "magia" serve para isolar: ou você está acima do humano (o místico) ou abaixo dele (o criminoso). Nunca no mesmo nível.

O que existe de verdade?

O que chamam de magia é, na verdade, resistência cultural.

  • A leitura de mãos e adivinhações: uma forma de sobrevivência econômica e leitura social desenvolvida por quem sempre precisou entender o outro para sobreviver.

  • O uso das ervas: se você não pode ir à farmácia, você aprende o que a terra dá. O conhecimento sobre raízes, infusões e ungüentos foi passado de geração em geração como uma questão de vida ou morte. Chamar isso de "magia" é ignorar séculos de estudo prático da natureza e de autossuficiência diante de um Estado que sempre lhes deu as costas.

  • Os rituais com fogo e música: celebrações de uma identidade que tentaram apagar diversas vezes — inclusive no Holocausto (Porajmos), fato que muita gente que "ama magia cigana" sequer conhece.

O Pretexto para a Perseguição

Por que insistem no termo "magia"? Porque é conveniente.

  • Se é magia, não é ciência (então podemos invalidar).

  • Se é magia, é perigoso (então podemos perseguir).

  • Se é magia, é exótico (então podemos consumir sem respeitar o ser humano por trás dela).

Ao longo dos séculos, essa "aura mística" serviu de pretexto para o Estado e a Igreja demonizarem o povo cigano. Se algo saía errado em um vilarejo, a culpa era do "feitiço". Se queriam expulsar uma comunidade, alegavam "bruxaria".

https://jornal.usp.br/especial/revista-usp-117-a-construcao-das-identidades-ciganas-no-brasil/

Fica um questionamento: Você respeita a cultura ou só consome o mito?

Dizer que "magia cigana não existe" não é um ataque à espiritualidade de ninguém, mas sim um choque de realidade necessário. Quando paramos de ver os povos ciganos pelo filtro do sobrenatural, somos forçados a enxergá-los como eles realmente são: seres humanos com uma cultura riquíssima, mas que enfrentam preconceitos reais, baseados em rótulos que nós mesmos criamos.

você está pronto para abandonar o estereótipo da vidente de bola de cristal e começar a respeitar a história e os direitos de um povo real?