Para entender a história das Ghawazee, é preciso antes "limpar as lentes" através das quais o Ocidente as enxergou por séculos. A visão europeia sobre essas dançarinas foi profundamente moldada pelo Orientalismo — um movimento estético e intelectual que, muitas vezes, romantizou o Oriente como um lugar de mistério e luxúria, fruto de um profundo choque cultural.
Quando viajantes e soldados europeus chegaram ao Egito, depararam-se com mulheres independentes que dominavam o espaço público e geriam sua própria renda. Incapazes de compreender essa autonomia, os europeus frequentemente as rotularam de forma simplista como prostitutas, ignorando que elas faziam parte de guildas profissionais com tradições ancestrais. Essa imagem distorcida e hipersexualizada não era a realidade, mas sim uma projeção da fantasia europeia sobre o corpo da mulher oriental.
1. Origens e Identidade
Tradicionalmente, as Ghawazee eram um grupo de dançarinas profissionais itinerantes do Egito.
Etnia: Acredita-se que tenham origens ligadas aos povos Dom (etnia indo-ariana, parentes dos Roma/Ciganos), embora ao longo dos séculos tenham se integrado à rica tapeçaria cultural egípcia.
Significado do nome: O termo Ghawazee significa literalmente "invasoras" ou "conquistadoras do coração", sugerindo o impacto avassalador que suas performances causavam no público.
2. Estilo de Dança e Performance
Diferente da dança clássica de palco (Raqs Sharqi) que vemos hoje nos grandes teatros, o estilo das Ghawazee era:
Focado no Quadril: Movimentos rápidos, vigorosos e com tremores (shimmies) intensos e constantes.
Instrumentação: Elas quase sempre tocavam sagat (címbalos de metal) enquanto dançavam, mantendo o próprio ritmo e comandando a percussão.
Ambiente: Originalmente, apresentavam-se ao ar livre: nas ruas, em feiras, festivais religiosos (mulids) e casamentos populares.
Vídeo que escandalizou o mundo em 1896: Fátima Djamilee a dança que desafiou a censura de Thomas Edison.
3. O Conflito com a Autoridade e a Invasão Napoleônica
Um marco histórico crucial ocorreu em 1834, quando o governante Muhammad Ali Pasha baniu as Ghawazee do Cairo.
Este banimento teve relação direta com as consequências da Campanha de Napoleão Bonaparte décadas antes (1798). A presença francesa expôs as dançarinas aos olhos europeus, gerando relatos que escandalizaram tanto os conservadores locais quanto os próprios viajantes, que frequentemente associavam a liberdade dessas mulheres à prostituição.
Para "limpar" a imagem do Egito perante o Ocidente e modernizar o país sob padrões vitorianos, o Pasha exilou-as para o Alto Egito (sul), especialmente para cidades como Esna e Luxor. Isso criou uma distinção histórica definitiva entre as Ghawazee (dançarinas de rua/folclóricas) e as Awalim (artistas eruditas que cantavam, tocavam e recitavam poesia apenas para a elite, geralmente dentro de recintos privados).
4. Regionalismos: Baixo Egito (Norte) vs. Alto Egito (Sul)
A divisão do Egito é baseada no curso do Rio Nilo: o Alto Egito fica ao sul (onde o rio nasce e as terras são mais elevadas) e o Baixo Egito fica ao norte (onde o rio deságua no Delta).
As Ghawazee não são um grupo homogêneo, e a principal diferença entre as danças da região de Soumboti (Baixo Egito) e Saidi (Alto Egito - estilo da Família Maazin) reside na geografia, na música e na energia da dança.
Aqui estão os pontos principais de distinção:
Localização e Influência Cultural
Ghawazee de Soumboti (Norte/Delta): Originárias do Baixo Egito (região do Delta do Nilo). A cultura dessa região é influenciada pelo ambiente rural camponês (Fellahin). É uma área historicamente mais aberta a trocas culturais devido à proximidade com o Cairo e o Mar Mediterrâneo.
Ghawazee do Saidi (Sul/Luxor): Originárias do Alto Egito. O "Saidi" é uma região mais conservadora, tribal e com tradições muito enraizadas. A dança aqui é mais "crua" e preserva linhagens familiares específicas, como a famosa Família Maazin.
Estilo e Movimentação
- Soumboti: A dança tende a ser mais leve, saltitante e fluida. Os movimentos de quadril são rápidos, mas há uma certa "alegria campestre" que lembra as festividades do Delta. O deslocamento pelo espaço costuma ser um pouco mais dinâmico e com uma estética visual que incorpora elementos camponeses (Fellahi).
- Saidi (Família Maazin): localizadas em Luxor, representam a linhagem mais famosa de Ghawazee (o grupo Nawar). A dança é terrena e pesada (no sentido de conexão com o solo). A postura é mais altiva e as batidas de quadril são extremamente poderosos. O foco está na força rítmica e na presença imponente da dançarina com a estética visual do povo saidi.
Musicalidade e Instrumentos
Soumboti: Frequentemente acompanhadas por instrumentos de sopro mais suaves ou cordas, mantendo uma sonoridade que reflete o folclore do Norte.
Saidi: É dominada pelo som estridente do Mizmar (instrumento de sopro de palheta dupla) e pelo ritmo Saidi marcado fortemente pelo Dumbek e pelo Tabl Baladi (grande tambor). É uma música que "vibra no peito", exigindo uma dança muito mais percussiva.
Vestimenta
Soumboti: Frequentemente usam trajes que remetem às camponesas do Delta (Fellahi), às vezes com mais babados ou tecidos mais leves que favorecem o movimento saltitante.
Saidi: O traje clássico é o Yelek (uma túnica longa aberta na frente, usada sobre uma camisa ou camisolão) ou o Ghalabeya ajustado. O visual da Família Maazin (do Sul) é icônico pelos adornos de cabeça, muitas moedas e cores vibrantes.
Resumo Comparativo:
| Característica | Ghawazee Soumboti (Norte) | Ghawazee Saidi (Sul) |
| Energia | Leve e saltitante | Forte, terrena e densa |
| Principal Região | Delta do Nilo | Luxor / Esna |
| Ritmo Dominante | Fellahi / Ritmos do Delta | Saidi |
| Instrumento Chave | Flautas / Cordas | Mizmar e Tabl Baladi |
| Foco da Dança | Agilidade e fluidez | Força rítmica e impacto |
Visto tudo isso, conclui-se que enquanto as de Soumboti "flutuam" e brincam com o ritmo do Delta, as do Saidi "marcam o chão" com a autoridade e a força das linhagens mais antigas de Luxor.
5. O uso dos Snujs (Címbalos de Metal)
O uso dos snujs (ou sagat) era a marca registrada das Ghawazee e possuía uma razão econômica e prática: como eram artistas de rua independentes, muitas vezes não tinham recursos para contratar músicos. Ao dominar os címbalos, a dançarina tornava-se sua própria orquestra, garantindo a autossuficiência da performance e gerando o barulho necessário para atrair a atenção das multidões nas feiras barulhentas.
6. Malabarismos e Acrobacias
Para se destacarem e garantirem melhores gorjetas, as Ghawazee transformavam o cotidiano em espetáculo:
Bastões: Demonstravam habilidade, equilíbrio e força.
Jarros de água: Equilibrados na cabeça enquanto executavam isolamentos complexos de quadril.
Cadeiras: Embora menos comum nas ruas egípcias tradicionais, o famoso vídeo da dançarina "Princess Rajah" (início do séc. XX) ilustra essa vertente quase circense que fascinava o público internacional.
7. O Legado e a Família Maazin
Atualmente, os maiores guardiões do estilo autêntico são os membros da Família Maazin, especificamente a linhagem das Banat Maazin (Filhas de Maazin). Embora a dança oriental tenha se globalizado e se tornado mais "baletizada", o estilo Maazin preserva a essência: a túnica yelek, o uso pesado dos sagat e uma energia indomada que o turismo de massa muitas vezes tenta suavizar.
8. Por que elas são importantes?
Sem as Ghawazee, a dança oriental moderna não teria sua força rítmica e seu "pé no chão". Elas representam a resistência de mulheres artistas que, mesmo vivendo à margem da sociedade e enfrentando banimentos, foram indispensáveis para manter viva a alegria popular egípcia.
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